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Destaque

Um Conto de Porto Alegre

PARTE 01

 

O Mundo não é mais o mesmo do outono do século XX.

Nem você é o mesmo, metade do corpo é composto por ligas sintéticas, órgãos internos pré-fabricados em alguma fábrica esquecida na Nova Pequim e um esqueleto de titânio.

Tudo isso e mesmo assim ainda não tiveram a capacidade de construir algo para evitar de sentir o cheiro de podre das ruas de Porto Alegre.

"Esses chineses não devem saber o que é andar nos esgotos do sul do Brasil". - você pensa - ou acha que pensa, pois com o processador quântico que implantaram em seu cérebro, você não sabe quando está tendo um pensamento original ou se é o Quanti, como chama carinhosamente a voz interna dentro da sua cabeça, que está determinando o que você deve fazer.

Chove novamente e as ruas de Porto Alegre estão alagando mais uma vez. Você está parado na esquina olhando para o mesmo prédio, esperando o suspeito do assassinato da filha de um figurão da FIERGS sair de casa para segui-lo 

"Eric" - a voz feminina dentro da caixa craniana fala com aquele tom terno e sereno de sempre - "acredito que seria mais satisfatório para o seu organismo se abrigar naquele café do outro lado da rua".

"Ok Quanti" - e uma senhora, usando uma jaqueta de nylon com a bandeira do Japão nas costas, passa  e acha que é só mais um viciado em triptamina - "mas se alguém sair do edifício será difícil de acompanhar, você não acha"?

"Todos os pontos de fuga possíveis já foram traçados". Quanti monta linhas tridimensionais nos olhos sintéticos e você fica chateado por saber que ela faria todo o mapa de possíveis trajetos antes da pergunta terminar.

"Tá bem, tá bem, vamos sentar naquele café! Até que vai ser bom sair dessa chuva chata, já estou cansado de esperar nosso suspeito sair do edifício".

E é no exato momento que você arruma a gola do casaco de couro para atravessar as intermináveis poças de esgoto da rua que escuta o som do primeiro tiro, logo seguido por mais cinco. E tudo isso veio exatamente da janela em que você ficou a tarde e a noite toda encarando.

 

CONTINUA...